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Notícias :: O tempo que nos resta – por Regina Alonso


REGINA ALONSO. Escritora e membro das academias de Letras Artes e Ofícios Santista, Vicentina e de Praia Grande.



O tempo que nos resta


Abro a janela dos sonhos na tentativa de te aprisionar, ó tempo! A vida sempre está em outro lugar - palavras de Kundera, espinhos a atiçar a navegante que sou. Os sonhos, agora imaginários, são cãezinhos de estimação que levo a passear, sem coleira. Em margens distantes, a passagem devoradora do tempo.


Desperto fantasmas... A avó resmungando, enquanto ajuda mamãe na cozinha. Voltando da praia, belisco uma batata frita e me apresso para o banho. O frescor da água, a libélula que adentra pela pequena janela rente ao teto, são mensagens de esperança. O pequeno cacto se fará em flor, quando papai chegar e nos surpreender com sua volta, antes da ceia de Ano-Novo.


A lembrança da inesperada floração basta à navegante que sou. Não fujo de nada. O regresso é um barco repleto de sonhos... Há restos de Natal nos casarões da infância, flocos da neve de algodão, o anjo de asa lascada e o Menino dormindo na manjedoura. Quero acordá-lo ainda antes da meia-noite. Agradecer o pão à mesa, a harmonia em casa e a esperança que renasce ao findar mais um ano. E perguntar, Senhor, o que não consigo calar. Por que alguns têm tanto e outros nada? Nem um naco de pão, nem cama para o descanso?


Quantas pessoas vivendo nas ruas... Temos locais voltados para abrigá-los, ensinar serviços e recolocá-los no mercado de trabalho? Temos sensibilidade para mudar essa “rota acomodada” do mundo atual?


Senhor, renascestes após seres crucificado, morto e sepultado, para que o homem descobrisse o amor. Amor por todos, sem distinção. Mas há diferenças, Senhor. E quando elas se tornam gritantes, despertam a revolta, a guerra, a morte de inocentes. Senhor, eu sonho com um mundo solidário.


A vida humana vai além do sonho. Concretiza-se a cada fragmento dos instantes em que descobrimos o outro, convivendo e tecendo um novo tempo. Com o outro, encontro um mundo em mim mesmo. Um mundo de pressentimentos e desejos, imagens nítidas e forças vivas. Assim, sorrindo e sonhando, prossigo a minha viagem. Navegante que sou, chego à casa que não é apenas minha, mas está de porta aberta para quem chegar. A mesa posta para a ceia, traz a memória dos antepassados: a toalha bordada, a louça com friso dourado, o faqueiro... As flores frescas perfumam a sala. Na hora do brinde, a sobrinha-neta grita ‘família’, fortalecendo o amor que nos une.


O poema Infância, de Cristina Peri Rossi, traduz o momento: Lá no princípio,/todas as coisas estavam juntas,/infinitas no número e na pequenez./E enquanto tudo estava junto/a dor era impossível/a pequenez, invisível.


No tempo que nos resta, deixemos aflorar a criança que vive em nós. E 2026 será realmente renovado!








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