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Notícias :: Livros do ano: de sentir, de pensar – A Tribuna – 27-12-2025


Flávio Viegas Amoreira

Escritor, membro das academias de Letras de Santos e Praia Grande e curador da Casa das Culturas de Santos
flavioamoreira@uol.com.br
TRIBUNA LIVRE - A TRIBUNA
www.atribuna.com.br
Sábado 27/12/2025






Ler como segunda natureza, ler necessidade vital, ler prazer até no esforço por compreender. Os anos, aos que amamos a leitura, são contados pelos momentos que dividimos entre fatos, tarefas e páginas vencidas. As livrarias e sebos são abrigo revitalizante. Sei que o busco, não leio listas de mais vendidos, geralmente descartáveis aos densos, e cultivo hábito de ler três gêneros diferentes ao mesmo tempo, sem dano para a assimilação. Um grande poeta ao dia, um conto por noite e um romance em quinze dias. Essa é a receita, sem contar as obras de não ficção. Este ano, rei e indico contos que só melhoram com o tempo. Maria, de Conceição Evaristo, retrato da dor de uma mulher brasileira. No mesmo tom, mas com estranheza típica, rei Natal na Barca, de Lygia Fagundes Telles. Também tive o prazer de desvendar um universo opressivo, e ‘claro enigma’, do norueguês Jon Fosse, prêmio Nobel de literatura merecido, que recomendo enfaticamente: E Ales e Branca, cerca de 50 páginas para nunca esquecer! Uma aventura ler esse mestre!

Quem lê, lê tudo! Como diz Andy Warhol: “Gosto dos garotos que dizem que me desafiaram!” Eu prefiro os que me desafiam. Este ano, também toda Prefeitura de Curitiba distribuiu Colônia Cecília nas escolas. Um romance histórico que nos dá pistas do que foi a primeira colônia anarquista do Brasil. Milão pré-fascista e os guetos de Marselha aumentaram as pressões e os exílios, mas não anularam a utopia de liberdade e a aversão às incertezas.

Um romance grego que vaticina o fim do sistema contemporâneo ocidental, com o qual convivemos, por outro espectro econômico não menos excludente e fantasmagórico, sob a égide de big techs. Yanis Varoufakis em Tecno Feudalismo - O que matou o capitalismo é obra assustadora sobre a nova tecnologia e sua mão invisível de submissão digito-cerebral.

Inevitável seguir lendo tudo do filósofo teuto-coreano Byung Chul Han. A estética do Belo é apelo subverso em nome da beleza das esperas, da contemplação, da liberdade de não se render à pressa e à eficiência, contra o juízo de rebanho homogeneizante.

Onde o valor, quando se perde o preço de tudo sem a substância do nada? Eis a pergunta mais ainda ativa uma pensadora como Julia Kristeva. Meu Alfabeto é tesouro a refletir para onde estamos caminhando. Terceirizando a criatividade o que restará de nós, se não seja substituído por um aplicativo de pensar sem sentir? Abdicando de criar, de surpreender, renunciando ao epidérmico de sentir juntos, que tipo de humano virá depois de nós? Diante da ditadura das imagens, onde está o direito de pertencer? Qual sentido de significado sem compreender? Delegaremos a máquinas viveres e projetar sem intuir?

O prenúncio distópico vislumbra-se com a disseminação do caos. O que é o caos senão a inteligência, o caos pregando ódio à arte e inteligência, o caos achando que não há mais direitos, suprimindo democracia, urdindo bodes expiatórios. Como diz Kristeva “nossas trilhas precisam de velhas pistas”: os caminhos de Platão, Shakespeare, Spinoza, Cervantes podem nos salvar. As mãos de Mozart, sobre as cores de Van Gogh, nas veredas de Guimarães Rosa. E à beleza que pode nos salvar, camaradas de planeta! Um lindo ano novo lendo!








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